Curadoria de Exposição: A Construção de uma Paisagem

Uma exposição de arte deve materializar de forma contundente as propostas da curadoria, a intencionalidade labiríntica dos artistas e deixar um espaço para que o visitante possa fruir livremente no contato com a obra exposta e, assim, ser impactado e sensibilizado por esta recepção.

Diversas etapas precedem a montagem de uma exposição: a definição das linhas de força do acervo, o recorte, a seleção de obras, a construção das vizinhanças, a intensa discussão com o arquiteto sobre a concepção da museografia, o teste dos croquis de montagem no computador, a escritura do texto, a definição da cor das paredes, da luz, da comunicação visual, etc. Cada um destes itens deve auxiliar na criação da atmosfera que irá, se tudo der certo, atuar fortemente na percepção dos trabalhos, direcionando para as questões conceituais tabuladas pela curadoria em comunhão com os artistas.

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Exposição 10 anos do MAM

Elaborar o projeto de uma montagem é imaginar a construção de um mundo paralelo. É como antever uma paisagem que irá receber o visitante, tirando-o do seu universo cotidiano para levá-lo a outra dimensão. É preciso construir uma zona de conforto – ou de desconforto, se for o caso – particular para sequestrar as pessoas da velocidade de processamento de dados atual, da necessidade de decifrar tudo rapidamente em um golpe de olhar.

Gosto de pensar metaforicamente a parede vazia de uma sala expositiva à espera das obras que a preencherão como uma folha em branco à espera de um texto. Quando começamos a pensar as vizinhanças das obras, é como se cada uma delas fosse uma palavra que se encontrava embaralhada entre outras no acervo e que, a partir do conceito estabelecido para a mostra, algumas de suas potencialidade ganham maior relevância e sentido. Ao ordenar estas obras/palavras, temos possibilidades de escrever algumas frases. É importante pensar, então, qual será o sujeito, o predicado, o verbo, etc, de cada frase. As escalas maiores ou menores dos trabalhos, assim como a potência de cada um, suscitam palavras em caixa alta e baixa, sublinhadas ou não. E há os espaçamentos entre elas, que devem variar dentro de uma lógica de aproximações e isolamentos. Respiros mais longos ou menos compassados. E assim esta “escrita” vai ganhando ritmo, pulsação e gerando novas relações simbólicas.

Confira o artigo completo inclusive entrevistas com os fotógrafos Magnum Abbas e Moises Saman na versão online da Fotografia et al #2 aqui.

Eder Chiodetto

Eder Chiodetto é mestre em Comunicação e Artes pela ECA/USP, jornalista, fotógrafo, curador independente e autor dos livros O Lugar do Escritor (Cosac Naify), Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Edições Sesc), Curadoria em Fotografia: da pesquisa à exposição (Ateliê Fotô/Funarte), entre outros. É curador do Clube de Colecionadores de Fotografia do MAM-SP desde 2006. Realizou a curadoria de importantes mostras tais como Olhar e Fingir – Fotografias da Coleção Auer (MAM-SP, 2009); A Invenção de um Mundo – Acervo da Maison Europeénne de la Photographie (Itaú Cultural, 2009); Geração 00: A Nova Fotografia Brasileira (Sesc Belenzinho, 2011) e O Elogio da Vertigem: Coleção Itaú de Fotografia Brasileira (Maison Europeénne de la Photographie, Paris, 2012), entre outras. Desde 2011 Chiodetto coordena o Ateliê Fotô, espaço de encontro dos Grupos de Estudos e Criação em Fotografia. Site www.ederchiodetto.com.br.

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